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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Conduta Marcial



Hierarquia Marcial 

Os princípios hierárquicos representam a base que assegura a perpetuação do kung fu através dos tempos. Sem tais princípios esta arte marcial chinesa seria um amontoado de socos e pontapés com a finalidade somente de desordem social. É graças á hierarquia de cada ‘família-kung fu’ que a arte é tida desde os tempos mais remotos como instrumento de moldação do caráter humano, garantindo assim, exemplos de moralidade e retidão espiritual.
A hierarquia dentro do kung fu é semelhante àquela usada pelos povos antigos, onde o pai exercia o papel de líder, cabeça responsável pelo sustento e educação (disciplina) dos seus filhos e esposa, o que não deixa de ser uma maneira peculiar de governar. Caso o pai se ausentasse, caberia ao mais velho (esposa ou filho mais velho) proteger e zelar pela ordem da casa. Com a morte do pai, cabia ao filho mais velho defender os mais novos até que cada um adquirisse estrutura suficiente para resolver seus próprios problemas, constituir uma família etc.
Sem hierarquia não haverá respeito, sem respeito não haverá disciplina; sem disciplina não haverá ordem, sem ordem não haverá equilíbrio. Sem equilíbrio não haverá vida (continuidade). Por este ângulo, percebe-se a importância da hierarquia na perpetuação de uma ‘família kung fu’, onde o mestre (sifu) é o responsável pela veiculação de um estilo. O sifu é a autoridade máxima dentro de uma família-kung fu, seguido pelos seus alunos e discípulos.
De acordo com a tradição, o Aluno Novato deve obediência ao Aluno Mais Velho, que deve obediência ao Grande Aluno Mais Velho, que deve obediência ao ‘Aluno Discípulo’, que deve obediência ao seu Sifu (mestre-pai).
A hierarquia deve ser alimentada para que a arte não perca sua essência. Os bons hábitos devem de início, ser uma obrigação para que com o tempo se tornem naturais. O aluno mais velho deve servir de exemplo aos mais novos que, mais tarde, servirão de espelho aos recém chegados. Como diz o dito popular, o hábito faz o monge.
O bom aluno (de boa conduta, disciplinado e esforçado) tem mais chance de ser um bom professor. Enquanto que um aluno indisciplinado, de péssima conduta tem mais chance de ser um professor problemático, irresponsável.
É de cedo, enquanto o bambu ainda é jovem que deve se moldá-lo ao modo correto, na forma desejada. É de cedo, quando ainda jovem que o aluno praticante deve experimentar o caminho da retidão, da boa conduta; educado nos princípios filosóficos da arte marcial escolhida.

Fonte: /www.deterrawingchun.com/wingchun.html

domingo, 24 de outubro de 2010

Balance.

Um problema comum entre os iniciantes nas artes marciais é a concentração. Conseguir limpar a mente dos pensamentos que atrapalham uma boa aplicação da técnica é muito difícil de início e tende a interferir em todo aprendizado. Para conseguirmos entender melhor os conceitos necessários para desenvolver algumas habilidades que desenvolvam a nossa concentração eu vou entrar em alguns aspectos que apesar de não dominar muito, posso arriscar algumas palavras. Nas culturas orientais, ao contrário das do ocidente que são mais divulgadas é comum a união fundamental do corpo e da mente, assim como no conceito de equilíbrio do yin e yang, espírito e matéria ou macho e fêmea, que participam da dança universal de todas as coisas.  No oriente a sabedoria tem pouco valor se não for ao mesmo tempo um fenômeno sensorial e mental que participa diretamente no desenvolvimento espiritual e intelectual de cada individuo, assim como sua saúde do corpo em equilíbrio, em algumas meditações básicas o praticante se concentra nas sensações corporais primárias.
  Hoje em dia sabemos que para a prática correta das artes marciais é preciso que o indivíduo se dedique não só nos aspectos físicos, mas sim na inicialização da cura mental das feridas encontradas em nossa psique. Com o respaldo de descobertas cientificas sobre a dualidade do cérebro humano podemos nos aprofundar nesses conceitos e entender melhor o nosso funcionamento, observando que a parte direito e a esquerda do cérebro tem funções distintas: O hemisfério esquerdo do cérebro controla o aspecto conceitual, racional e verbal, enquanto o hemisfério direito controla a dimensão intuitiva, artística e não verbal. Isso comprova a importância da aplicação de outros conhecimentos nas artes marciais que ajudam a entender a dualidade de nossa própria natureza. Sabendo disso é necessário o estimulo de dois pontos vitais para o desenvolvimento e equilíbrio de nossas energias, o ponto da cabeça e do ventre.  A maioria de nós durante a prática de artes marciais começa a perceber que em nossa cultura é comum valorizar uma parte dessa dualidade, enquanto a outra parte fica subvalorizada. Ao menosprezar a parte do ventre, por considerarmos incapaz e insignificante estamos criando um desequilíbrio perigoso, assim como quando nós privamos o princípio da cabeça de seu complemento natural, este se torna rígido, violento, espiritualmente vazio, inseguro e estável. Essa privação que a mente sofre é refletida na forma de tensões, neuroses e muitos outros males.
  A contraparte disso é quando subvalorizamos o princípio do ventre, que reprimido tenta continuamente retomar o equilíbrio harmonioso,e ao encontrar resistência se distorce, perdendo seu caráter natural. Essa distorção se manifesta muitas vezes com a dureza e o peso do individuo, que se torna incapaz de se movimentar com leveza e fluidez o que muitas vezes leva ao descontrole se manifestando com emoções e sensações negativas. A primeira vista pode parecer que se trata apenas de um conflito entre extremos que ao terem sua autoridade abalada pelo oposto se sentem ameaçados. A eterna guerra entre a razão e a emoção não deve ser entendida unicamente como um conflito natural, para nós praticantes é importante entender que buscamos a verdade, essa verdade está localizada num centro, num equilíbrio e por mais tentador que seja acreditar mais em determinado aspecto do que outro é de extrema importância que encontremos o balanço de tudo, procurando a integração das duas partes. A neurofisiologia tem descoberto que, apesar das partes esquerda e direita do cérebro terem funções especificas, nas atividades normais ambas intervêm ativamente, observando também que à medida que nós aumentamos a nossa atividade cerebral (seja através da meditação ou psicoterapia) os eletro encefalogramas, ou seja, as representações das ondas cerebrais, vão tornando-se mais simétricas e os dois hemisférios acabam tendo a mesma estrutura harmoniosa e limpa. Dessa forma eu quis tentar introduzir a idéia de equilíbrio através da concentração, da limpeza de nossa mente e espírito para o aprimoramento da energia equilibrada e mais pura, que muitos acham se tratar de um novo tipo de energia que surge ao se atingir esse equilíbrio, como conheço pouco do assunto não vou me arriscar muito sobre esse terceiro ponto que seria focado no coração, mas deixo a porta aberta para que possamos discutir o assunto e trocar conhecimentos com relação não só a esse tema, mas como qualquer coisa ligada que possa contribuir de forma positiva ao nosso entendimento.   

Por: Rubem de Souza A. Neto

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Charlatões.

No final dos anos 60 e início dos 70, quando Bruce Lee apareceu pela primeira vez nos filmes de Artes Marciais, sua reputação cresceu rapidamente, proporcionalmente aos seus expressivos socos e chutes. Pessoas do mundo inteiro começaram a conhecer o Kung Fu. O kung Fu tornou-se moda, e muitas pessoas iniciaram as suas buscas por academias, matriculando-se em qualquer escola que encontravam. Mas, o kung Fu continuava a ser um mistério, e essas pessoas não podiam reconhecer nele uma arte genuína. Desta forma, alguns charlatões, sem verdadeira qualificação, começaram a ensinar “kung Fu” visando ganhar dinheiro. Alguns deles, que tiveram uma base em artes marciais japonesas ou coreanas, e talvez uma pequena experiência em algum estilo chinês, modificaram os seus estilos ou os nomes dos mesmos, denominando-se “Faixas Pretas” ou “Faixas Vermelhas” em kung Fu. No entanto, kung Fu não requer originalmente sistema de faixas que diferencie o grau de praticante. O sistema de faixas coloridas foi desenvolvido mais recentemente por razão de classificação (e em alguns casos, por razões comerciais), e não necessariamente identifica o grau do praticante. Tradicionalmente, verdadeiros “Mestres” ou “Grão-Mestres” nunca devem se apresentar como tal, expressando ou escrevendo tais títulos. Humildade e esforço são essenciais para melhorar o sentido de um verdadeiro artista marcial, o qual deve reconhecer que sempre tem mais a aprender e aperfeiçoar em seus estudos e pesquisas. Além disso, se o próprio professor ainda estivesse vivo, seria
considerado vaidade e desrespeito á auto-intitulação como “Mestres” ou “Grão-Mestres”. Alguns indivíduos inventaram novas formas, e declararam que estas eram antigas e secretas, e disseram que eram as únicas pessoas a ensiná-las no mundo. Outros tentaram dizer aos seus alunos que conheciam algumas formas secretas, que seriam passadas somente para discípulos “Closed Door”. Eles cobravam taxas exorbitantes para que os alunos aprendessem tais formas. Embora o termo “Closed Door” tenha existido há séculos, nunca se sustentou uma relação de rápido retorno financeiro. Na verdade, consistia em passar a arte para
os alunos mais devotados. Recentemente, em alguns casos, alguns professores raspam as cabeças e se declaram monges Shaolin, nascidos e educados no Templo. No entanto, estes “monges de papel”, na verdade, têm famílias esperando por eles na China para sustentá-las. Outros ainda, com pequena experiência, declaram ser descendentes diretos do fundador da arte somente para vender “credibilidade”, em séries para vídeos ou livros.

Origem do Kung Fu

  A origem do Kung Fu, como o conhecemos hoje, está relacionada, de um lado, ao
militarismo do povo chinês, e de outro, a vinda de Bodhidharma da Índia para a
China. Quanto ao militarismo, ou ao espírito guerreiro do povo chinês, as
explicações são controvertidas. Alguns atribuem este "espírito guerreiro do povo
chinês", primeiro a grande extensão do território, que dificultava a proteção das
fronteiras, segundo as invasões estrangeiras que obrigavam os imperadores a
manterem grandes exércitos, terceiro as guerras internas entre os "senhores
feudais" e os imperadores. Não nos parece que um povo se restrinja aos
governantes com seus exércitos; de modo que não parece correta a proposição
que atribui a origem do kung fu ao militarismo do povo chinês. Há ainda outro
fator: a miséria e a superpopulação. A maioria não tendo nada, matava por um
prato de comida, e o restante era obrigado a defender o pouco que possuía com a
própria vida. O argumento é que este estado de miséria gerou um interesse
natural do povo pelas artes marciais. De um lado, a necessidade dos imperadores
de manterem grandes exércitos, de outro, o interesse do povo pelas artes
marciais, gerado pela necessidade de garantir a sobrevivência. A necessidade de
defender o território e pouca preocupação com a vida, de um lado e, de outro, a
necessidade de sobreviver e nenhuma preocupação com território.
  Um fato histórico onde se pode verificar uma certa manifestação do espírito
guerreiro do povo chinês, foi a revolução dos boxers, onde a população e certas
lideranças políticas estiveram unidas contra os desmandos do governo envolvido
em corrupção e tráfico de ópio. No entanto, os boxers insuflam o povo à revolta,
apelando muito mais para um espírito nacionalista do que para sua consciência de
povo, conforme demonstra um dos cartazes afixados em Pequim na noite inicial
da revolta, o qual reproduzimos abaixo.

"O Santo imperador Chu Hung Tang avisa a todos os discípulos de Budha: morte
aos demônios do oeste que oprimem nosso país escarrando sobre nossos deuses
e roubando nossas riquezas. O grande momento já foi escolhido pelo destino. O
céu não permitirá que aqueles que violaram tantas sepulturas para abrir caminho
para suas máquinas de ferro e que tomaram a força às terras dos filhos do sol
escapem à condenação de seus crimes. Insolentes como são, esses bárbaros não
recuam diante de nada. É por essa razão que nós, membros da Sociedade
Harmoniosa do Punho Fechado, membros da arte marcial chinesa, da justiça e da
concórdia, o convidamos a massacrá-los sem piedade no cair desta noite".

  O texto deste cartaz indica bem o espírito nacionalista da apelação. Este espírito
não tem seu fundamento nas artes marciais, nem tampouco é este espírito um
fundamento para as artes marciais. Pensamos que não dá para atribuir a origem
das artes marciais, na china, a um espírito próprio de seu povo, mas a um
conjunto complexo de fatores que, decerto, inclui também este espírito.
Chamamos a atenção também para a noção incorreta do termo povo, na
expressão "espírito guerreiro do povo chinês", no contexto que anunciamos aqui.